Prezados amigos e prezadas amigas,
Muitos de vocês devem estar surpresos com nosso engajamento, de um ano para cá, na luta antinuclear. Mal conhecendo questões de energia e praticamente nada de física ou engenharia nuclear, porque entramos nessa seara, em si mesma extremamente técnica e difícil, e tão diferente de nossas áreas profissionais? E porque nos concentramos em um conteúdo tão específico de ação política, quando há um bom tempo nos ocupamos muito mais com a ação política enquanto tal.
Quem nos empurrou para dentro desse desafio foram os amigos Alfredo e Ecléa Bosi, pouco depois do acidente nuclear de março de 2011 em Fukushima, no Japão. Eles nos acordaram para a impossibilidade de, como cidadãos e seres humanos, aceitarmos passivamente a insistência de nosso governo em usar a tão perigosa opção nuclear para atender às necessidades energéticas do Brasil.
De lá para cá temos procurado ler, ouvir, conversar, perguntar, pesquisar. E vamos ficando cada vez mais estarrecidos com o manto de mistério e de mentira com que se procura encobrir tudo que se refere ao nuclear e com os riscos que corremos com essa opção política, no Brasil e no mundo. Tomamos conhecimento de fatos gravíssimos que não são noticiados, sobre por exemplo o que aconteceu e continua acontecendo em Chernobyl, em Fukushima e até em Goiânia, palco em 1987 de um grave acidente radioativo do qual hoje pouca gente no Brasil se lembra.
O pânico tomaria conta da população se soubéssemos a verdade. Essa talvez seja a justificativa dos técnicos e políticos, que entraram alegremente nessa aventura de aprendizes de feiticeiro, para nos manterem na mais completa ignorância dos perigos que vivemos – diga-se de passagem que o fazem regiamente recompensados pelos grandes interesses econômicos, nacionais e internacionais, que ganham com a opção nuclear. Que Deus nos proteja, mas como viveriam os moradores de Angra dos Reis se soubessem o quanto sofrerão com um acidente nas vizinhas usinas! Acidentes que podem ocorrer sem necessidade dos terremotos e tsunamis de Fukushima mas por simples descuidos humanos ou falhas de máquinas ou projetos, ou mesmo, nesse caso concreto, por desbarrancamentos da “pedra podre” (Itaorna) sobre a qual foram construídas!
De fato, contrariamente ao que afirmam os defensores da energia nuclear – muitos com incrível desfaçatez e até de forma arrogante - ninguém em sã consciência pode afirmar que exista obra de engenharia humana 100% segura. Mas as consequências da explosão de um reator nuclear - por mais longínqua que se torne, pelos mil novos cuidados de segurança que vão sendo efetivamente tomados - não são as de um incidente técnico qualquer, com alguns “efeitos colaterais” negativos, sempre passíveis de conserto e reconstrução, quando por sorte não se perderam vidas humanas. Elas são catastróficas porque liberam, a níveis imprevisíveis, a invisível mas mortífera radioatividade, que contaminará diretamente o ar, a terra, as plantas, as coisas, os animais e as pessoas num raio de pelo menos 30 quilômetros, e as afetará por muitas gerações.
E há ainda a real possibilidade, nos dias de hoje, das ações chamadas terroristas, que podem transformar uma usina nuclear, aparentemente bela e inofensiva, numa bomba atômica muito mais poderosa que as de Hiroshima e Nagasaki, de tristíssima memória.
Pouquíssimo se fala, por outro lado, mais além dos riscos de explosão, do descalabro da radioatividade do lixo atômico, um subproduto automático e absurdo, escondido atrás do mito da energia limpa, do funcionamento “pacífico” dessas usinas - herança realmente diabólica que já estamos (repetindo, já estamos...) deixando para as futuras gerações. E menos ainda se fala da possibilidade de proliferação de armas nucleares que se esconde atrás da tecnologia nuclear.
Tomamos contato nesta semana com a realidade francesa, onde quase 80% da energia elétrica é fornecida por centrais nucleares. Vimos que isto é hoje tão dramático para eles que nem gostam de comentar. Em países do hemisfério norte, o rigor dos invernos faz com que a energia elétrica tenha se tornado imprescindível para esquentar as casas - já que não é possível ter vacas no andar de baixo – como para fazer funcionar máquinas, transportes, iluminação pública. Ora, “sair do nuclear”, com dizem os franceses, é um demorado caminho que hoje, após Chernobyl e Fukushima, eles procuram nervosamente encontrar. Um caminho ao longo do qual continuarão a conviver, cada dia, com o risco de acidentes em suas usinas e com os milhares de caminhões e trens que transportam, pelo pais afora, toneladas e toneladas de lixo atômico.
Tem algum sentido que o Brasil, que só começou a entrar nessa armadilha (hoje pouco mais de 1% de nossa energia vem das usinas nucleares de Angra) tome inconscientemente esse mesmo caminho? E isso sem nenhuma necessidade, graças às possibilidades que Deus nos deu de contar com enormes fontes de energia natural, como os rios, as marés e correntes marítimas, o vento e o sol, além da biomassa e dos próprios dejetos animais! Nosso governo e os responsáveis do seu setor nuclear tem o direito de ser assim irresponsáveis ou desinformados? Na verdade, ao construir Angra III e conduzir o país a esse beco estreito se tornam passíveis da acusação de crime de lesa-humanidade. É urgente, portanto, acordá-los.
Cada vez mais gente se associa no engajamento político com esse objetivo, num esforço crescente de esclarecimento de nós mesmos, da população em geral, do governo e do Congresso. Há pouco menos de um ano foi constituída em São Paulo uma Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares (www.brasilcontrausinanuclear.com.br ), que logo se ligou a uma Articulação Antinuclear Brasileira (http://antinuclearbr.blogspot.com) , criada na mesma ocasião no Rio de Janeiro. Neste mês de junho 2012 ambas as organizações montaram uma “tenda anti-nuclear” durante a Rio+20, onde, assim como em outras atividades realizadas paralelamente a essa Conferência, ouvimos testemunhos impressionantes, especialmente de japoneses, vindos de Fukushima e outras regiões do país, e de Chernobyl. Mas, para termos uma ideia do poder do lobby nuclear, ao mesmo tempo do Japão se noticiava que o governo daquele país havia ignorado olimpicamente uma petição com sete milhões de assinaturas contra a reabertura de suas usinas e reabriu duas delas, supostamente mais seguras. E já se sabia que os Estados Unidos, depois de abandonar a construção de novas usinas após o acidente de Three Miles Island em 1979, estavam tomando a decisão de retomar tais construções...
Por todas essas razões a luta antinuclear passou a ser, hoje, nossa principal atividade, à qual consagramos nosso maior esforço físico e emocional. Dentro dele acabamos de organizar um livrinho explicativo sobre o assunto, publicado pelas Edições Paulinas (com o titulo “Por um Brasil livre de Usinas Nucleares”). E usamos todas as ocasiões possíveis para colher assinaturas na Iniciativa Popular lançada pela Coalizão e pela Articulação para que nossa Constituição vede a construção de usinas nucleares no Brasil.
Na verdade uma enorme angustia vem nos invadindo, ao tomarmos cada vez mais consciência de todos os riscos que existem e que crescem graças à desinformação generalizada sobre o que realmente se passou e se passa no mundo com a tecnologia nuclear.
Nosso abraço, Chico e Stella Whitaker, 11 de julho de 2012